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Fabulada

Corpo e sentidosPortuguês

Laura e o morro que canta

— Eu consigo sozinha — disse Laura, e segurou a escova com as duas mãos.

Era noite, e chovia. Lá fora, o morro cantava baixinho, como sempre cantava quando chovia. Mmmmm. Ninguém na casa achava estranho. O morro era assim.

Laura queria uma coisa só: escovar todos os dentes antes de dormir, até o último, lá no fundo da boca. Assim o sono vinha sem gosto de bolacha.

Ela escovou os dentes da frente. Escovou os dos lados. Mas o dente de trás, lá em cima, não deixava a escova chegar.

— Ai — disse Laura. A escova escorregou e fez plin na pia.

O pai passou pela porta com uma toalha no ombro. Ele só queria pendurar a toalha no gancho.

— Quer ajuda? — perguntou.

Laura fez que não com a cabeça. Pedir ajuda era mais difícil do que escovar.

— Eu consigo. Só preciso de mais tempo.

— Está bem — disse o pai. — Vou apagar a luz da sala.

Laura tentou de novo. Virou a escova de lado. Puxou a bochecha com o dedo. Nada. O dente de trás parecia estar no alto de uma ladeira comprida, e a escova nunca chegava lá em cima.

Então ela ouviu o morro. Mmmmm.

Ela reparou numa coisa. Para cantar assim, grosso e comprido, era preciso abrir bem a boca, redonda como uma lua.

Laura abriu a boca redonda como uma lua.

— Aaaaa — fez ela.

A bochecha se afastou. O dente de trás apareceu, branquinho, no alto. A escova subiu a ladeira devagar, e chegou.

Esfrega, esfrega, esfrega. A espuma cresceu e Laura tentou cantar junto com o morro. Saiu um som todo borbulhante.

— Blub-mmm-blub!

Ela riu, e uma bolha de espuma estourou no nariz dela.

Laura cuspiu e enxaguou. Passou a língua nos dentes de cima, um por um, até o último. Estavam lisos como pedrinhas de rio.

Na janela, a chuva batia de leve. O morro ainda cantava, cada vez mais baixinho, e Laura sorriu para o espelho com todos os dentes.