Corpo e sentidosPortuguês (Brasil)
Heitor e o Frasco Vazio
Heitor achou um frasco de vidro vazio atrás do galinheiro. Ele abriu a tampa e cheirou. Cheirava a terra molhada.
— Que estranho — disse Heitor. — Não choveu nada hoje.
A vovó Lia vinha passando com o cesto de roupa.
— Ah, esse é o frasco da chuva — disse ela. — Eu guardei um pouco do cheiro nele, no verão passado. Já quase acabou.
Heitor ficou pensando. Ele queria muito aquele cheiro. Queria levar o frasco para a escola e mostrar para os amigos. Mas o frasco estava quase sem nada.
— Vovó, como eu faço mais?
— Isso eu não sei — disse a vovó. — Eu só pendurei a roupa. — E foi embora, porque as meias não iam se pendurar sozinhas.
Heitor tentou primeiro com a mangueira. Molhou a terra do canteiro. Pluft, pluft, pluft. Mas o cheiro era de cano, e não de chuva.
Então tentou com o regador. Molhou a calçada. Cheirou. Cheirava a pedra molhada e a nada mais.
— Chuva boa, chuva boa — resmungou ele. — Cadê você?
Sentou no degrau. Olhou para o céu. Lá em cima, uma nuvem cinzenta ia ficando mais gorda. Perto dele, as formigas corriam depressa, carregando folhinhas para casa.
— Vocês estão com pressa — disse Heitor.
Foi aí que ele notou: as formigas sabiam. Elas sempre sabiam. O ar estava diferente, mais fresco e mais doce, como um pão saindo do forno. E tinha o mesmo cheiro do frasco.
— Vovó! — gritou Heitor. — Vem cá! Vai chover!
Ele correu até o meio do quintal e abriu a tampa do frasco, bem aberta.
Uma gota caiu no nariz dele. Depois outra, na tampa. Depois o telhado inteiro começou a cantar, plim, plim, plim.
Heitor ficou parado, de nariz para cima e frasco no alto. O quintal inteiro cheirava a terra molhada, e o cheiro entrava no vidro, devagarinho.