Corpo e sentidosPortuguês (Portugal)
O Diogo e a Chuva na Varanda
Diogo ouviu um plim no vidro da janela, e depois outro, e correu para a varanda da cabana.
Era a primeira chuva depois de muitos dias de sol. Diogo queria muito apanhar o cheiro dela. Dizia a avó que a chuva cheirava a terra a acordar, e ele nunca tinha reparado.
Sentou-se no baloiço, que rangeu: nhéc, nhéc. Fechou os olhos e fungou.
— Cheira a baloiço velho — disse ele.
Não era isso. Fungou outra vez, mais forte.
— Cheira a meias — disse.
Também não. A chuva ainda era pouca, e o ar não cheirava a nada.
Chegou o Pim, o gato da vizinha. Tinha vindo só para se abrigar debaixo do banco, porque não gostava de molhar as patas. Sacudiu-se e espirrou.
— Pim, tu sentes o cheiro? — perguntou o Diogo.
O Pim lambeu uma pata e não respondeu.
Diogo pensou. Se o cheiro estava escondido, talvez fosse preciso ir ter com ele. Estendeu a mão para fora do telhado e a chuva caiu-lhe na palma, fresca e a fazer cócegas. Depois pegou numa folha que a chuva tinha deixado no corrimão e levou-a ao nariz.
Fungou. E de repente lá estava: um cheiro de terra molhada, doce e escuro, como o fundo de um vaso de flores quando a avó o rega.
— Já sei! — gritou Diogo. — Cheira a terra a acordar!
Nesse instante o baloiço fez nhéc, o Pim saltou de susto e a chuva começou a cair a sério. Plim, plim, plim, no telhado inteiro.
O Pim voltou a encolher-se debaixo do banco, a ronronar baixinho. Diogo ficou no baloiço, de olhos fechados, a respirar fundo a chuva toda.