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Fabulada

Corpo e sentidosPortuguês

O Penico da Helena

– Toc, toc, toc! – fez a chaleira lá na cozinha, e Helena levantou a cabeça.

Era a música dela. Naquela casa, a chaleira assobiava uma música diferente para cada pessoa, e a de Helena era toda saltitante. Ela largou o urso no tapete e foi correndo ver.

Helena tinha três anos e queria uma coisa só: fazer xixi no penico, sozinha, como o irmão grande. O penico era amarelo e ficava no banheiro, ao lado da pia.

– Hoje eu consigo – disse ela.

Foi até lá e sentou. Esperou. Esperou mais um pouco. Nada.

– Calma – disse a mãe da porta. – Vai chegar.

Helena levantou. Sentou de novo. Cantou uma música baixinho. Nada ainda.

Então ela ouviu um barulho forte. A descarga do banheiro grande! Fazia um VUUUSH tão alto que Helena ficou dura como uma estátua. Para ela, o banheiro inteiro parecia um rio bravo.

– Não gosto desse barulho – sussurrou.

Ela tentou outra vez, mas o barulho ficava na cabeça. Ela tentou de novo, de olhos fechados. Nada.

Foi quando ela escutou outra coisa, bem de leve: plim, plim, plim. A torneira da pia pingava.

Helena abriu os olhos. Plim. Plim. Era um barulho pequeno e manso, como chuva num riacho raso, daqueles que se atravessa de pé descalço.

– Chuvinha – disse ela, e riu.

Ficou quietinha, ouvindo. Plim, plim, plim. Os ombros foram descendo, descendo. A barriga ficou mole.

E, de repente, tchiiiu, o penico cantou um pinguinho de música também.

– Mãe! – gritou Helena. – Eu fiz! O penico fez chuvinha!

Lá na cozinha, a chaleira começou a assobiar a música dela, saltitante e alegre, e Helena balançou os pés no ritmo, ouvindo a torneira pingar.