Corpo e sentidosPortuguês (Portugal)
Rui bacio vermelho
Rui era o único menino da rua com um limoeiro na janela do quarto. O limoeiro ganhava uma roda de folhas novas em cada lua cheia. Ninguém achava isso estranho. Era só o limoeiro do Rui.
Naquela manhã, Rui queria uma coisa só: usar o bacio vermelho, como a irmã usava a casa de banho.
— Eu consigo, avó — disse ele.
Sentou-se no bacio, ao pé do parapeito cheio de vasos grandes e pequenos. Esperou. Nada.
Cantou uma canção. Nada. Fez de conta que era um piloto de avião. Nada. O bacio era frio, e Rui já tinha pressa de ir brincar.
— Não sai nada, avó!
A avó entrou com o regador. — Tenho de regar os vasos, filho. Já vou, já vou.
E foi de vaso em vaso, a regar. Rui não se mexeu. Estava farto de tentar, por isso só ficou a ouvir. A água caía na terra: plim, plim, plim. Caía no vaso pequeno, caía no vaso grande, e fazia sempre o mesmo som, calmo e devagar.
Rui ficou quieto, quietinho. A barriga ficou mole como um cobertor. E, de repente, o bacio fez um barulhinho a sério.
Pssssss.
Rui abriu muito os olhos. A avó virou-se, com o regador no ar.
— Avó! Ouviste?
— Ouvi, sim — disse ela, e sorriu para os vasos.
Agora vinha a parte difícil. Rui pegou no bacio com as duas mãos, a língua de fora, e atravessou a cozinha.
— Devagar, devagarinho — disse ele a cada passo.
O gato passou-lhe pelos pés, e Rui parou, e esperou, e seguiu outra vez. Devagar, devagarinho. Chegou à casa de banho sem entornar uma gota.
Despejou tudo na sanita e puxou o autoclismo. A água desceu a rodopiar, com um grande ruído de cascata, e Rui bateu palmas, enquanto ainda ouvia o plim, plim, plim do regador lá longe.