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Fabulada

Corpo e sentidosPortuguês (Brasil)

A Lagoa de Rodinhas

Laura queria ver o desenho novo da lagoa antes que a luz do dia acabasse.

Toda noite, a lagoa perto da casa dela congelava num desenho diferente. Ontem foi uma estrela. Anteontem, um monte de bolinhas. Ninguém achava isso estranho. Era só a lagoa.

— Escova os dentes primeiro — disse a mãe, secando um copo.

— Depois! — disse Laura. — A luz já está indo embora!

Ela passou a escova nos dentes: um, dois, três. Cuspiu. Correu para a porta.

— Laura. — A mãe nem se virou. — Isso foram três vezes. Dente precisa de mais.

Laura voltou, bufando. Tentou de novo, bem rápido, de lá pra cá, de lá pra cá. A espuma subiu pelo queixo como uma barba de neve. Pela janela, o céu já estava cor de laranja apagada.

— Rápido não deu — resmungou Laura. — E agora?

Ela olhou a lagoa. A beirada começava a ficar branquinha. O gelo vinha devagar, fazendo uma rodinha, depois outra, depois outra.

Laura parou. Uma rodinha. Outra rodinha. Igualzinho à escova nos dentes.

— Mãe, a lagoa está escovando! Eu vou escovar junto!

Levou a escova para o degrau da porta, de onde dava para ver a água inteira. Fez rodinha em cima, rodinha embaixo, rodinha atrás. De lá pra cá, de lá pra cá. Quando o gelo fazia uma, ela fazia outra.

A mãe trouxe a toalha e sentou ao lado dela, só olhando.

— Crec — fez a lagoa.

— Crec — disse Laura, de boca cheia de espuma. Ela riu, e a espuma foi parar no nariz.

A lagoa se cobriu de rodinhas, uma dentro da outra, como uma renda. Laura escovou os dentes de trás. Escovou a língua. A luz foi sumindo, e o último brilho ficou preso dentro do gelo.

Laura cuspiu, enxaguou e sorriu com todos os dentes.

— Olha, mãe. Hoje é de rodinhas.

— Estou vendo — disse a mãe, e enxugou o queixo dela com a toalha.

Lá embaixo, a lagoa fez só mais um crec, bem baixinho, e ficou quieta.