Corpo e sentidosPortuguês (Brasil)
O Ovo Azul na Colina
Heitor achou um ovinho azul num ninho de capim, bem no meio das flores da colina.
A chuva morna tinha acabado de passar. A colina estava amarela, roxa e cor-de-rosa, e o ovo brilhava, pequeno como uma uva.
— Eu quero ver ele abrir — sussurrou Heitor.
Ele se sentou quietinho. Só que, quietinho, o nariz começou a coçar. Era o pólen, aquele pó amarelo das flores, voando no ar como farinha.
— Ai, não — disse Heitor. — Vem espirro.
O espirro do Heitor era o mais alto da rua. Quando ele espirrava, os cachorros latiam e as janelas tremiam.
Uma sabiá pousou perto, com um raminho no bico. Era a mãe do ovo. Ela queria voltar para o ninho, mas olhou para o menino de cara torta e ficou parada, de longe.
Heitor apertou o nariz.
— Segura, nariz, segura!
O nariz coçou mais.
Ele prendeu o ar até a cara ficar vermelha como tomate. O espirro só cresceu.
— Segura, nariz, segura! — repetiu, bem fraquinho.
Então Heitor viu uma florzinha amarela balançando na frente do nariz. Viu o vento subindo a colina e empurrando o pó para cima, até ele.
"Se o pó vem de lá", pensou, "eu vou para o outro lado."
Levantou na ponta dos pés. Desceu a colina até a pedra grande, onde não havia nenhuma flor. Respirou fundo, bem fundo.
— ATCHIM!
Foi tão alto que as pétalas saíram voando e a pedra respondeu: "tchim, tchim, tchim". Lá em cima, a sabiá deu um pulinho. Mas o barulho estava longe, e ela voou direto para o ninho.
Heitor esfregou o nariz. Estava leve e quieto. Subiu devagarinho e se sentou no capim, bem longe das flores amarelas.
A sabiá ficou ali, toda fofa, aquecendo o ovo. O vento soprava mansinho.
E, de dentro do ovo azul, veio um barulhinho: tic.
Tic, tic.