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Fabulada

Corpo e sentidosPortuguês (Portugal)

Dentes de Estrela

A Catarina estava em cima do banquinho, com a escova na mão, a olhar para o frasco da pasta. Queria muito lavar os dentes, porque o pai tinha dito que quem os lavava bem ficava com um sorriso a brilhar no escuro.

Mas o frasco estava vazio. Ela apertou, apertou, e só saiu um «fff» muito fininho.

— Pai! — chamou. — A pasta acabou!

— Há outra no armário da casa de banho — disse o pai, da cozinha. — Tu consegues.

A Catarina abriu o armário. Lá no fundo estava a pasta nova. Esticou o braço, esticou mais, e a ponta dos dedos só lhe fez cócegas na caixa.

Então empurrou o banquinho para junto do armário. Subiu outra vez. Ainda não chegava.

— Tenho de pensar noutra maneira — disse ela baixinho.

Olhou à volta. Viu a escova do pai, comprida e azul, pendurada no copo. Pegou nela e esticou-a para dentro do armário. Empurrou a caixa devagarinho. A caixa rodou, rodou, e caiu no lavatório com um «plof!».

— Consegui! — disse a Catarina.

Abriu a caixa. Dentro vinha o tubo, redondo e gordinho. Tirou a tampa e apertou. Saiu uma minhoca de pasta, branca e fresca, mas saiu de mais e escorregou pelo lavatório abaixo.

A Catarina riu-se. Pôs a pasta na escova, devagar, só um bocadinho. Depois lavou os dentes de cima, os dentes de baixo e os dentes de trás, que ficam escondidos. Esfregou em voltinhas, como quem faz bolinhas de sabão.

Cuspiu, bochechou e olhou-se ao espelho. Mostrou os dentes todos, bem abertos.

— Pai, anda ver!

O pai espreitou à porta e apertou os olhos.

— Que brilho! Parecem estrelas pequeninas.

A Catarina apagou a luz da casa de banho. Ficou um instante parada, a sentir na boca o fresco da hortelã, enquanto a água ainda pingava, pingava, na torneira.