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Fabulada

Coragem e medosPortuguês (Portugal)

Rita e o Cobertor dos Trovões

A Rita queria dormir, mas a trovoada não deixava.

Lá fora, o céu fazia ronc, ronc, ronc, como um tambor grande. A Rita sentou-se na cama com o coelho de pano ao colo.

— Eu quero ouvir um trovão de cada vez — disse ela baixinho. — Assim sei quantos são.

Pegou num lápis e num papel e começou a fazer riscos. Um trovão, um risco. Outro trovão, outro risco. Mas os trovões vinham a correr, uns atrás dos outros, e não paravam quietos para serem contados.

— Assim não dá — disse a Rita.

Tentou outra coisa. Pôs os dedos nos ouvidos. Agora não ouvia nada, e isso era pior. Tirou os dedos.

Nesse momento, ouviu um pios fininhos debaixo da janela. Era uma andorinha pequenina, toda molhada, no parapeito.

— Posso entrar? — perguntou a andorinha. — O meu ninho ficou sem telhado.

— Entra — disse a Rita. — Mas eu não sei onde te pôr.

— Não te preocupes. Eu só preciso de um cantinho para ficar seca, até a chuva passar.

A Rita olhou à volta. Puxou o cobertor da cama e fez uma dobra, depois outra. Pôs uma almofada atrás, a meias com o coelho de pano na frente. Era um ninho, pedacinho a pedacinho.

A andorinha saltou lá para dentro e sacudiu as penas. Pingos pequeninos voaram por todo o lado.

— Atchim! — fez a Rita, a rir.

O céu fez ronc, ronc outra vez. A andorinha encolheu-se.

— Ronc, ronc — repetiu a Rita, com voz grossa, a imitar o trovão. — Ronc, ronc.

A andorinha espreitou. Depois tentou também.

— Pi-ronc, pi-ronc.

Riram-se as duas. Cada trovão que vinha, elas diziam ronc, ronc, e já era como uma música.

A Rita deitou-se ao lado do ninho, com o papel esquecido no chão. Os trovões foram ficando longe, longe, e a chuva ficou só um som mansinho no vidro. Ao lado dela, a andorinha respirava devagar, quentinha dentro do cobertor.

— Ronc… — disse a Rita, num sussurro.

E a janela respondeu, com pingos pequeninos: plic, plic, plic.