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Fabulada

Coragem e medosPortuguês (Brasil)

A Escada da Tempestade

A casa da Helena ficava no alto de um morro, e a escada de dentro era comprida demais para descer. Para subir, eram dez degraus. Para descer, eram vinte. Ninguém achava estranho. Era assim, e pronto.

Helena tinha cinco anos e um gato chamado Pipoca. Naquela noite, a tempestade chegou de repente. O vento assobiou na janela. A chuva bateu no telhado, e a luz da casa apagou.

Helena queria uma coisa só: ir até a cozinha, no andar de baixo, buscar a lanterna da mamãe.

— Eu já volto, Pipoca — ela disse.

Começou a descer. Um, dois, três degraus. Lá fora, o trovão fez bum! Helena parou, com as mãos na parede.

— Vinte degraus — ela sussurrou. — Só vinte.

Mas no escuro, os degraus pareciam não acabar. Ela contou até dezessete e o chão não chegava. Contou de novo, e deu dezenove. Ficou perdida na conta.

Então tentou outro jeito. Sentou no degrau e desceu escorregando, bem devagar. Só que o escuro era tão grande que ela se perdeu da mesma forma.

Foi quando ouviu um ronronar baixinho, atrás dela. Pipoca tinha vindo atrás. Não para ajudar. Ele só queria ficar perto do calor da Helena, porque o trovão também lhe dava arrepio. O rabo dele passou pelo tornozelo dela, fofo e quente.

Helena sentiu aquele pelo e teve uma ideia.

— Pipoca, fica aqui. Eu conto os degraus com o pé, e você me diz quando eu errar.

Pipoca miou. Foi um miau pequeno, mas serviu.

Ela desceu devagar, sentindo cada degrau com o pé. Um. Dois. Três. Quando o trovão fez bum!, ela não parou: só apertou o corrimão e continuou. Dezoito. Dezenove. Vinte.

O pé tocou o chão frio da cozinha.

Helena foi tateando até a gaveta e achou a lanterna. Clique! Uma luz redonda e amarela brilhou na parede. Pipoca piscou, com os olhos brilhando como duas moedinhas.

Helena se sentou no chão da cozinha, com o gato no colo. Lá fora, a chuva ainda batia no telhado, mais mansa agora, pingo, pingo, pingo, e o ronronar do Pipoca vinha junto, bem pertinho do ouvido dela.