Coragem e medosPortuguês
O Barulho da Roda
Julia ouviu tic, tic, tic no canto do quarto e puxou o cobertor até o nariz.
Ela queria dormir na própria cama, a noite inteira. Tinha prometido ao papai: hoje não vou para a cama de vocês. Mas o quarto estava escuro como o fundo de um bolso, e o tic, tic, tic não parava.
— Quem está aí? — sussurrou Julia.
Ninguém respondeu. Só o tic, tic, tic.
Primeiro ela fechou os olhos bem apertados. Não ajudou. Com os olhos fechados, o barulho parecia maior. Então esticou o braço e apertou o botão da luzinha da mesa. Clic, clic. Nada. A lâmpada tinha queimado.
Julia respirou fundo e ficou quietinha, escutando. E reparou numa coisa: o barulho vinha de baixo, perto do chão. Era um barulho pequeno. Um barulho de pés pequenos.
— Pés? — pensou ela.
Desceu da cama devagar. Pôs as mãos na frente e foi andando, um passinho, outro passinho, seguindo o som. O tapete fez cócegas nos dedões. O tic, tic, tic ficou mais perto, mais perto, e as mãos dela tocaram umas grades frias.
A gaiola do Bolinha!
Lá dentro, a rodinha girava: nhec, nhec, nhec. O hamster corria e corria, como se tivesse um compromisso muito importante.
— Bolinha, é você? — disse Julia. — Você me deu um susto!
Ele nem olhou. De noite era a hora dele de correr, e ele não ia perder a hora por causa de uma menina assustada. Corria mais e mais depressa, até que a rodinha girou rápido demais e, plof, o Bolinha caiu sentado no feno.
Julia tapou a boca para não rir alto. O Bolinha se sacudiu, ajeitou o bigode e subiu de novo na roda, como se nada tivesse acontecido.
Tic, tic, tic.
Julia sentou no tapete, bem pertinho da gaiola. Agora os olhos dela já tinham se acostumado. Dava para ver a janela cinzenta, a sombra da cadeira e dois olhinhos redondos que brilhavam.
O tic, tic, tic foi ficando mais devagar. Parecia chuva fina no telhado.
Tic... tic... tic...
Julia apoiou a cabeça no braço e bocejou.