Coragem e medosPortuguês
A Colcha de Abelhas
– Tem alguém zumbindo aí embaixo – disse Alice, e sentou na cama de cima.
Era a primeira noite dela longe de casa. Ela dormia na casa da árvore da vovó Nena, bem na ponta do galho mais largo. A árvore era alta e torta, e a casa balançava um pouquinho.
Alice queria muito dormir ali. Tinha trazido o coelho de pano, a lanterna e a camisola de estrelas. Mas o quarto era diferente. O escuro tinha outro cheiro, e o zumbido não parava.
Ela desceu a escada de corda, degrau por degrau. Contou os degraus: um, dois, três... Mas o último degrau fugiu do número e ela perdeu a conta. Recomeçou. Perdeu de novo.
– Vovó, tem um barulho! – chamou.
– É a colmeia – disse a vovó, de camisola, com uma xícara na mão. – Na noite mais fria do ano, as abelhas cantam uma canção de ninar. Elas cantam para si mesmas, não para você. Estão juntinhas para esquentar.
– Mas eu não consigo dormir com isso.
– Então me conta o que você vai fazer – disse a vovó, e foi regar as flores de noite.
Alice tentou tapar as orelhas com o coelho. Zzzum, zzzum. Ainda ouvia.
Tentou cantar mais alto. Mas a voz ficou tremida e ela parou.
Então ela escutou de novo, bem quieta. O zumbido subia e descia, subia e descia, como a barriga do coelho quando ela o abraçava. Era um balanço.
– Ah! – disse Alice. – Elas respiram.
Ela subiu os degraus, um, dois, três, e dessa vez o último ficou quieto no lugar. Deitou, abraçou o coelho e respirou com as abelhas. Zzzum, para dentro. Zzzum, para fora.
A casa balançou. A lanterna rolou e fez plof no tapete. Alice riu baixinho e nem foi buscar.
Lá fora, a canção continuava, e a cama ficou quentinha, como se uma colcha de abelhas cobrisse a árvore inteira.