Coragem e medosPortuguês (Brasil)
Manuela e o Cobertor da Vovó
A casa da vovó ficava no fim de uma rua de terra, com um pé de limão na porta.
Manuela tinha cinco anos e ia dormir lá pela primeira vez. Ela queria muito ficar. Mas, na hora de deitar, o quarto estava escuro e cheirava diferente. Faltava o coelho de pano, que ficou em casa, em cima da cama dela.
— Vovó, eu não consigo dormir — disse Manuela.
— Vamos ver — disse a vovó. — O que você tem aqui?
Manuela olhou em volta. Tinha uma cama grande, um relógio na parede e um cobertor de lã cinza, dobrado no pé da cama.
Ela tentou contar até dez. Perdeu a conta no sete.
Tentou virar o travesseiro para o lado fresco. Ficou fresco só um minuto.
Então ouviu um barulho, tic-tic-tic, vindo da parede. Era o relógio. Tic-tic-tic. Manuela prendeu a respiração. Não era um monstro. Era só o relógio, falando baixinho.
— Ah — sussurrou ela. — Você é o relógio da vovó.
Tic-tic-tic, disse o relógio.
Manuela puxou o cobertor cinza até o queixo. Ele era áspero e quentinho, e tinha um cheiro bom de limão e de sabão. Ela fez uma bolinha dele, apertou bem e deu uma ideia: o cobertor tinha duas pontas compridas, como duas orelhas.
Manuela fez um nó numa ponta. Fez um nó na outra. Pôs o cobertor de pé, bem fofo, no travesseiro.
— Pronto — disse ela. — Você é o coelho da vovó.
O coelho tombou para o lado e caiu em cima do nariz dela. Manuela riu, baixinho, e o coelho caiu de novo.
A vovó espiou na porta.
— Quem está rindo aqui?
— Eu e o coelho — disse Manuela. — Ele não é de pano. Ele é de lã.
— Então boa noite para vocês dois — disse a vovó.
Manuela abraçou o coelho de lã. Tic-tic-tic, fazia o relógio. Tic-tic-tic, cada vez mais devagar, e os olhos dela foram fechando junto.