Coragem e medosPortuguês (Portugal)
O Pomar da Mariana
O pomar estava cheio de maçãs, tão baixas que dava para lhes tocar com a mão. Era a primeira noite da Mariana fora de casa, e ela dormia numa tenda no meio das árvores.
A Mariana tinha uma coelha de pano, a Flor. Dormia sempre com ela. Sem a Flor, a noite era grande demais.
— Boa noite, Mariana — disse o pai, e fechou o fecho da tenda. Zzzip!
Mariana deitou-se. Procurou a Flor no saco-cama. Procurou debaixo da almofada. A Flor não estava lá.
Espreitou lá fora. A lua brilhava, e a Flor estava pendurada num ramo alto da macieira, com as orelhas a baloiçar. O vento tinha-a levado.
— Pai! — chamou a Mariana baixinho. Mas o pai já ressonava.
Mariana saltou, saltou outra vez, e não chegou. Puxou o ramo, mas o ramo era duro. Depois viu uma cesta cheia de maçãs, mesmo debaixo da árvore. Tentou empurrá-la. Era pesada demais. A cesta nem se mexeu.
Mariana sentou-se na relva e olhou à volta. Uma maçã caiu, plof, mesmo ao pé dela, e rolou pela relva. Mariana ficou a olhar para ela.
— Já sei — disse.
Tirou as maçãs da cesta, uma a uma, e pô-las na relva. Agora a cesta era leve. Virou-a ao contrário e subiu para cima dela.
Ainda faltava um bocadinho. Mariana esticou os dedos dos pés e esticou o braço. Apanhou uma orelha da Flor e puxou devagar.
A Flor caiu-lhe nos braços. Mas a cesta abanou, e as maçãs, que ela deixara em fila, rolaram atrás dela até à tenda, como pequenas bolas vermelhas.
Mariana riu-se baixinho. Levou a Flor para dentro e ficou com uma maçã na mão. Deitou-se, abraçada à coelha.
Lá fora, o vento mexia nas folhas. Dentro da tenda, a Flor estava quente, e a Mariana ouviu o pai a ressonar, bem perto, e os olhos fecharam-se devagar.