Coragem e medosPortuguês
A sopa da vovó
— A sopa vai esfriar — disse Julia, apertando a panela contra a barriga.
Lá fora, a tempestade girava entre as árvores. A casa de Julia ficava numa plataforma bem no alto, presa a três galhos fortes. A casa da vovó ficava na árvore do outro lado, e entre as duas havia só uma ponte de corda. Julia queria levar a sopa quentinha para a vovó antes de ela dormir.
Na ponta da ponte pendia um sininho de latão. Ele tocava sozinho sempre que o vento mudava de lado. Ninguém achava isso estranho. Era assim desde sempre.
Julia pisou na ponte. Uma rajada empurrou, a ponte balançou, e a sopa pulou para fora da panela. Plof! Caiu bem na bota dela.
— Então vou mais depressa — disse Julia.
Ela correu. A ponte balançou ainda mais, e saiu ainda mais sopa. Julia voltou para a plataforma com a bota molhada e a panela só pela metade.
Uma corujinha olhava do corrimão, com as penas arrepiadas. O ninho dela ficava na árvore da vovó, e com aquele vento ela não ia voar.
— Uuu — disse a coruja, bem baixinho.
Julia sentou no chão e pensou. Depressa não deu certo. Então ela tentou devagar, de joelhos, com a panela colada no peito. Mas a ponte balançou do mesmo jeito, e a tampa tremeu.
Foi então que o sininho tocou.
Plim, plão. O vento virou.
E por um instante, só um instantinho, tudo ficou quieto. A ponte parou. A chuva até pareceu descer mais mansa.
— Olha só! — sussurrou Julia. — Depois do sino, o vento respira.
Ela esperou. Plim, plão. O vento virou. Julia andou cinco passos, e parou quando o vento voltou a soprar. Esperou de novo. Plim, plão. Mais cinco passos.
A coruja foi atrás, pulando pela corda, e dizia "uuu" toda vez que o sino tocava, só que um pouquinho atrasada.
Na porta da vovó, Julia ainda tinha sopa na panela. Tinha o bastante para uma tigela cheia. Lá dentro, a chuva batia no telhado, e o sininho tocou outra vez, longe, bem de leve: plim, plão.