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Fabulada

EmoçõesPortuguês

O Poço da Eco Atrasada

No fim da rua de pedra, havia um poço onde o eco respondia sempre um pouquinho depois. Ninguém achava isso estranho. Era assim, e pronto.

O Rafael tinha cinco anos e queria muito uma coisa: jogar a bola vermelha dentro do cesto, na festa da praça. Era a última bola. Só tinha uma, e a Lia também queria.

— Eu primeiro! — disse a Lia.

— Eu primeiro! — disse o Rafael.

Os dois puxaram. A bola escapou, quicou três vezes e caiu no poço. Plof.

O Rafael olhou lá para baixo. Sentiu a barriga apertar e o nariz arder. Os olhos ficaram quentes e cheios.

— Não chora — disse a Lia. — Vão rir de você.

O Rafael engoliu o choro. Engoliu forte. Mas ele ficou preso na garganta, como um caroço de pêssego.

Ele tentou ficar quieto. Não deu. Tentou fazer careta. Também não deu.

Então se debruçou no poço e gritou, bem baixinho:

— Eu queria a bola!

Esperou. Nada. Esperou mais um pouco.

— ...queria a bola! — respondeu o poço, atrasado.

O Rafael piscou. A voz do poço parecia triste, igualzinha à dele. E, de repente, o choro saiu. Saiu grande, com soluço e tudo, e escorreu pelo queixo.

— Buá! — chorou o Rafael.

Esperou um instante. E lá de baixo veio:

— ...buá!

A Lia ficou parada. Depois sentou ao lado dele.

— Olha — disse ela. — Eu também queria a bola.

O poço respondeu:

— ...a bola.

Os dois riram sem querer. O Rafael fungou, limpou o rosto na manga e sentiu o peito leve, leve, como depois da chuva.

Foi então que a bola vermelha subiu devagar, boiando na água do fundo, redonda e brilhante.

— Vem — disse o Rafael. — A gente joga juntos.

— ...juntos — disse o poço.

Eles amarraram o balde na corda e desceram. Lá embaixo, a bola balançava de um lado para o outro. O vento passava pela boca do poço, e o Rafael ainda soluçava de leve, hic, enquanto a corda rangia, subindo.