EmoçõesPortuguês (Portugal)
Os Três Pratos da Rita
– Rita, vem jantar! – chamou a mãe, do outro lado da porta.
Rita ouviu, mas não foi. Estava com a cara a arder e os punhos fechados.
Naquela noite havia ceia tardia, à luz das velas, e a Rita queria muito pôr a mesa sozinha. Era o trabalho dela. Tinha contado os pratos, os copos e as colheres. Mas o irmão, o Tomás, tinha mexido em tudo, e agora havia um prato a menos.
– Estragaste a minha mesa! – gritou ela.
A raiva ficou grande, grande, como um balão dentro da barriga.
– Ainda não é hora de comer – disse a mãe, a rir baixinho. – Os avós só chegam depois da sopa.
Rita bateu o pé. Fez uma careta. Disse "não" três vezes. O balão não encolheu nada.
Então tentou outra coisa. Sentou-se no chão da cozinha e soprou devagar, como quem sopra uma vela. Uh-uuuh. O balão encolheu um bocadinho. Só um bocadinho.
Foi aí que ela reparou na chama da vela. Quando soprava, a chama dançava. Quando parava, ficava quieta.
– Olha – sussurrou. – Eu sou o vento.
Soprou outra vez, muito fraquinho. A chama dobrou-se e levantou-se. Rita riu. Soprou com força a mais, e pfff! A vela apagou-se.
– Ai! – disse ela.
O Tomás espreitou por baixo da mesa, com um prato na mão.
– Eu só queria um prato para o meu urso – disse ele.
Rita olhou para o urso, que tinha um laço ao pescoço e ar de ter muita fome. A raiva ainda estava lá, mas agora era pequena, do tamanho de uma noz.
Acendeu a vela de novo. Depois foi buscar outro prato ao armário, para o urso, e outro para os avós.
– Agora está certo – disse ela.
A chama ficou direita e quieta no meio da mesa. Lá fora, a campainha tocou, e os avós entraram a cheirar a frio e a bolo.