Primeiras vezesPortuguês (Portugal)
O urso Pimpão e o tubo de ouvir
A Inês sentou o urso Pimpão no colo e apertou-lhe o peito com o dedo.
— Calma, Pimpão. Primeiro és tu.
Estavam na sala de espera do centro de saúde. Lá fora chovia, e a colina atrás da janela fazia o seu zumbido de chuva, mmmmm, como sempre fazia. Ninguém ligava. A mãe lia uma revista.
A Inês queria muito ouvir o coração do Pimpão antes de ouvirem o dela. Assim ficavam os dois corajosos. Tirou da mochila o estojo de médico de brincar. Havia a lanterna, a ligadura e o tubo de borracha. Mas faltava a peça redonda, a que se encosta ao peito.
— Perdi-a! — disse ela.
— Procura bem — disse a mãe, sem tirar os olhos da revista.
A Inês procurou na mochila. Procurou debaixo da cadeira. Encostou a orelha ao urso, mas só ouviu o fofo do enchimento.
— Não faz mal — disse a mãe. — O senhor doutor tem uma verdadeira.
Mas a Inês não queria uma verdadeira. Queria a dela.
Então reparou na janela. A colina zumbia, e o vidro tremia um bocadinho com o zumbido. A Inês pousou a orelha no vidro e ouviu-o por dentro.
— Ah! — disse ela.
Pegou no tubo de borracha. Pôs uma ponta na orelha e a outra, só a ponta aberta, no peito do Pimpão. Ficou muito quieta.
Tum-tum. Tum-tum.
— Mãe! O Pimpão tem coração!
— Tem? — disse a mãe, e riu-se baixinho.
Nessa altura, a porta abriu-se e a doutora chamou:
— Inês?
A Inês levantou-se com o urso debaixo do braço e o tubo ao pescoço.
— Já ouvi o dele — disse. — Agora podes ouvir o meu.
A doutora aqueceu a peça redonda na mão e encostou-a ao peito da Inês.
Tum-tum. Tum-tum.
— Igualzinho ao do Pimpão — disse a doutora.
Lá fora, a colina continuava a zumbir com a chuva, mmmmm, e a Inês sorriu.