Primeiras vezesPortuguês (Brasil)
Poças que Tocam Tambor
A Sophia tinha um sapato que fazia piuí a cada passo. Só o dela. Os outros sapatos da rua faziam nada, mas o da Sophia chiava, piuí, piuí, até no tapete.
Naquela manhã, a mãe dela disse:
— Hoje a gente vai ao médico, Sophia. É só uma consulta. Ele vai ouvir seu coração e olhar sua garganta.
A Sophia queria uma coisa só: entrar no consultório sem ninguém ouvir o piuí. Ela tinha um pouco de vergonha dele. Ainda mais num lugar tão quieto.
Na rua, tinha chovido. As poças estavam cheias, e em Vila Redonda todo mundo sabia que poça pula e toca tambor quando alguém pisa nela. A Sophia pisou numa. Bum-bum, bum-bum! Ninguém nem olhou. Era assim mesmo.
Na sala de espera, tinha um menino de bota e um senhor com um chapéu. A Sophia andou até a cadeira bem devagar.
Piuí.
O senhor levantou os olhos. A Sophia sentiu o rosto esquentar.
Ela tentou andar na ponta do pé. Piuí, piuí, mais baixinho, mas ainda ali. Tentou ir arrastando o sapato. Piuííííí! Esse foi o mais alto de todos. O menino deu uma risada.
— Sophia Almeida? — chamou a moça da porta.
A Sophia olhou para o sapato. Depois olhou para a janela, onde a chuva ainda caía. E então ela teve uma ideia.
— Mãe, posso ir pela poça?
A mãe riu e deixou. Perto da porta, tinha uma poça grande. A Sophia pulou dentro dela com os dois pés. Bum-bum-bum! A poça tocou tão alto que o piuí sumiu todinho.
— Bom dia, Sophia — disse o médico, com um sorriso.
Ela entrou no consultório com o sapato pingando. Atrás dela, a poça ainda fazia bum, bum, bem baixinho. O médico encostou a pontinha fria no peito dela e escutou. Dentro da Sophia, o coração respondeu: bum-bum, bum-bum.
— Igualzinho à poça — disse ele.
E a Sophia ficou quietinha, escutando junto.