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Fabulada

Primeiras vezesPortuguês

Colher no Bolso

Helena era a única menina da vila que levava uma colher no bolso do casaco, até para dormir.

Ela queria provar tudo. Tudo, menos o que fosse esquisito.

Um dia, na cozinha do vô, havia uma fruta em cima da mesa. Era rosa-choque, com folhas verdes e pontudas, como um dragão pequeno.

— O que é isso, vô?

— Fruta-dragão. Vou fazer uma salada. Quer provar?

Helena queria. Mas a fruta era tão esquisita!

Ela tirou a colher do bolso.

— Só uma colherzinha — disse.

O vô cortou a fruta ao meio. Por dentro era branca, cheia de pontinhos pretos. Helena torceu o nariz.

— Parece pijama de bolinha.

— Parece mesmo — disse o vô, e foi buscar a tigela, porque a salada não ia se fazer sozinha.

Helena cheirou. Não cheirava a nada. Lambeu a ponta da colher. Também não sabia a nada. Mas a fruta continuava ali, esquisita, olhando para ela.

Atrás dela, a cadeira de balanço começou a balançar. Ela sempre balançava sozinha, quando alguém já tinha sentado nela naquele dia. Nhec, nhec, nhec.

— Só uma colherzinha — repetiu Helena, bem baixinho.

Ela espiou os pontinhos pretos. De perto, pareciam estrelas miúdas num céu branco. Então Helena teve uma ideia. Não ia comer a fruta toda. Ia comer só uma estrela.

Pegou um pedacinho da ponta, do tamanho de uma unha, e pôs na boca.

Crec!

Os pontinhos estalaram entre os dentes. A fruta era fresca e docinha, como uma água que tivesse virado fruta.

Helena arregalou os olhos.

— Vô! Ela faz crec!

— Faz mesmo — disse o vô, rindo.

Helena pegou outra colherada, e mais outra. Crec, crec, crec.

Depois sentou na cadeira de balanço, com a colher rosa de pontinhos pretos. A cadeira fez nhec, nhec, nhec, e balançou devagarinho, até parar.