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Fabulada

Primeiras vezesPortuguês (Portugal)

Ganso e Bicicleta

— Sozinho! Eu quero ir sozinho! — disse o Gonçalo.

Tinha uma bicicleta vermelha com uma campainha e queria chegar nela até ao lago, no fundo do quintal. O avô estava no banco, a descascar ervilhas. Não tinha vindo ajudar. Tinha vindo pelas ervilhas.

Já era fim de tarde. Naquele quintal, as pegadas brilhavam um bocadinho durante uma hora, como pó de lua, e ninguém achava isso estranho.

O Gonçalo subiu para o selim e pedalou. A bicicleta torceu para a esquerda e ele caiu na erva.

— Outra vez — disse o avô, sem levantar os olhos.

Na segunda vez, o Gonçalo olhou para as rodas, para ver o que faziam. A bicicleta torceu ainda mais. Na terceira, apertou o guiador com toda a força. Sem querer, apertou também a campainha.

— Trrrim!

Sentou-se na erva, de braços cruzados.

Então passou a Dona Ganso, de peito levantado, a caminho do lago para o jantar. Pónc, pónc, pónc, faziam os pés dela. Atrás ficava uma fila de pegadas a brilhar, direitinha como um fio.

O Gonçalo olhou para o fio. Ia até à beira da água.

— Se eu olhar só para aquilo… — murmurou.

Montou outra vez. Não olhou para as rodas. Olhou para as pegadas brilhantes, lá à frente.

— Pedala, pedala, olha lá para a frente — disse baixinho.

A bicicleta andou. Primeiro um bocadinho torta, depois menos. Depois, direitinha.

— Quá! — fez a Dona Ganso, aflita, a ver uma bicicleta a aproximar-se.

Deu um salto para o lado e sentou-se no meio de uma poça. O Gonçalo riu-se tanto que quase se esqueceu de travar.

Travou mesmo a tempo, com os pés na lama, à beira do lago.

Atrás dele, na erva, os rastos dos pneus brilhavam, uma linha comprida e macia, a ir até ao banco. O avô levantou uma ervilha, como quem diz boa. Na água, a Dona Ganso sacudiu as penas, e a campainha ainda tremia: trrrim.