Primeiras vezesPortuguês (Brasil)
O queijo que cheirava a meia
— Heitor, vem provar o queijo azul! — chamou o vovô, e Heitor fugiu para dentro do labirinto de cerca-viva, com o prato na mão.
Ele queria provar. Queria mesmo. Todo mundo dizia que aquele queijo era a melhor coisa do mundo, e o vovô fechava os olhos e sorria quando comia. Heitor queria saber por quê.
Mas o queijo tinha cheiro de meia molhada. E riscas azuis, como rios num mapa.
Heitor sentou no chão, entre as folhas altas. Tapou o nariz com dois dedos e deu uma mordida.
— Blé! — fez ele, e cuspiu no guardanapo.
Só uma mordidinha, pensou. Fechou os olhos bem apertados e lambeu a pontinha.
— Blé de novo!
Ele podia gritar pelo vovô e pedir ajuda. Mas pedir era mais difícil do que tentar sozinho. O vovô ia sorrir, e Heitor queria sorrir primeiro.
Do outro lado da cerca, alguma coisa fez snip, snip. Era o vovô, aparando um galho torto. Ele nem sabia que o neto estava ali.
Heitor espiou por um buraquinho entre as folhas. O vovô tinha parado e comia um pedaço de pão. Em cima do pão, uma lasca fina de queijo. E em cima do queijo, um fio de mel.
Heitor olhou para o próprio prato. Tinha pão. Tinha mel, numa colherinha.
Então espalhou o queijo bem fininho no pão, como quem cobre o lago com gelo. Pôs o mel por cima, devagar, até o azul sumir.
Só uma mordidinha.
Fez croc. O pão estalou, o mel escorreu, e o queijo ficou macio e salgado na língua. O cheiro de meia ainda estava lá, mas agora vinha junto com o doce.
Heitor fechou os olhos. Sem querer, sorriu.
Do outro lado da cerca, o vovô cantarolava, e a tesoura fazia snip, snip. Heitor lambeu o mel do queixo e mordeu outra vez.