Primeiras vezesPortuguês (Portugal)
A Fruta de Picos
A Rita queria provar a fruta de picos que apareceu no armário da avó.
O armário da avó mudava as prateleiras de sítio sempre que a porta se fechava. Ninguém achava isso esquisito. Hoje a prateleira de cima tinha ficado em baixo, e lá estava a fruta: verde, cheia de picos, do tamanho de um punho.
– Avó, o que é isto?
– Não sei, filha. Ontem não estava aqui. – A avó espreitava para dentro do armário. – Só quero a minha colher de pau. Prova, se quiseres.
A Rita queria muito. Mas a fruta cheirava a meias molhadas.
Primeiro, a Rita cheirou de longe. Eca! Depois lambeu um pico com a ponta da língua. Não sabia a nada, e o cheiro continuava a ser mau. Tentou outra vez, agora com o nariz apertado. Mas assim não conseguia morder, porque os picos eram duros e as mãos estavam ocupadas.
– Cheira mal – disse a Rita. – Mas e por dentro?
Olhou melhor. Perto do cabinho havia uma fenda fininha. A Rita enfiou os dois dedos e torceu.
Pop!
A fruta abriu-se ao meio, como uma caixinha. Por dentro era amarela, como a gema de um ovo, e cheirava a mel e a sol.
– Ah! – disse a Rita. – O mau cheiro estava só na casca!
Deu uma dentada pequenina. Era doce, fresca e um bocadinho cheia de bolhas, que lhe estalavam na língua. A Rita deu uma dentada grande. O sumo escorreu-lhe pelo queixo e pingou no chão.
– E então? – perguntou a avó.
A Rita não respondeu. Tinha a boca cheia e os olhos muito abertos.
A avó fechou a porta do armário. Rrrrrc, fizeram as prateleiras, a trocar de lugar lá dentro. E a colher de pau caiu do ar, direitinha para a mão da avó.
A Rita lambeu os dedos, um por um, devagar.