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Fabulada

Amizade e gentilezaPortuguês (Portugal)

A folha para o senhor da mala

— Não conheço ninguém aqui — murmurou o senhor da mala, e a Rita ouviu.

Ela estava debaixo da árvore grande da praça, onde se sentava todas as tardes. A árvore ganhava uma volta nova de folhas sempre que a lua ficava cheia, e na vila ninguém achava isso esquisito. Mas hoje o banco da Rita estava ocupado. O senhor tinha chegado primeiro, com a mala ao colo e a cara triste como um dia de chuva.

A Rita queria uma coisa só: dar-lhe uma palavra gentil. Uma palavra pequena, que o fizesse sentir-se menos sozinho.

Primeiro tentou o mais simples.

— Bom dia! — disse ela.

O senhor acenou devagarinho e olhou para os sapatos.

Depois tentou o biscoito.

— Queres um biscoito? Tem açúcar por cima.

— Hoje não tenho fome, obrigado — disse ele.

A Rita sentou-se no chão ao lado do banco, a pensar. Olhou para cima. Entre as folhas novas havia uma tão grande como a sua mão. Teve uma ideia.

Trepou ao ramo mais baixo, apanhou a folha e tirou o lápis do bolso. Escreveu, com a língua de fora: BEM-VINDO. Era uma surpresa! A folha ia cair, muito direitinha, no colo do senhor.

Ela esticou o braço e largou-a.

Mas veio uma ventania. A folha rodou, rodou, e pousou mesmo na ponta do nariz dele.

— Atchim!

A mala escorregou, o chapéu voou, e a Rita caiu do ramo de rabo no chão. Ficaram os dois a olhar um para o outro. Depois o senhor começou a rir, um riso rouco, de quem já não ria há muito tempo.

Pegou na folha e leu devagar:

— Bem-vindo.

— Foi uma palavra pequena — disse a Rita, a sacudir a saia. — Mas é para ti. Eu chamo-me Rita.

O senhor apanhou a mala do chão e encostou-a ao canto do banco.

— Cabe mais uma pessoa aqui, Rita?

Ela sentou-se ao lado dele. Por cima das suas cabeças, as folhas novas mexiam-se, chuuu, chuuu, e a folha escrita ficou quietinha no joelho do senhor, debaixo da mão dele.