Amizade e gentilezaPortuguês (Portugal)
A Pena do Gonçalo
Gonçalo encontrou uma pena azul dentro do sapato. Era grande como a mão dele e brilhava como água.
— Que bonita! — disse ele.
Gonçalo queria mostrá-la à avó, que adorava coisas bonitas. Correu pelo quintal até ao banco e sentou-se a olhar para a pena.
Foi então que a Nina, a gata da vizinha, saltou para o banco. Ela só queria uma sesta ao sol. Mas a pena mexeu-se, e a Nina deu-lhe uma patada.
Ploc! A pena ficou presa no cimo da cerca, com uma ponta rasgada.
Gonçalo ficou com a cara quente. Gritou:
— Gata má! Estragaste a minha pena!
A Nina ficou muito quieta. Depois desceu do banco devagar e foi esconder-se debaixo do limoeiro. Só se via a ponta do rabo.
Gonçalo foi buscar a pena. Estava torta, mas ainda era bonita. Olhou para o limoeiro. A ponta do rabo não se mexia.
«Eu gritei», pensou ele. «E ela só queria dormir.»
Primeiro, Gonçalo foi até lá e disse, muito baixinho:
— Nina, sai daí.
Nada.
Depois, tentou outra coisa. Pôs a pena no chão, perto do limoeiro, como quem oferece um presente. Nada outra vez. A Nina nem espreitou.
Gonçalo suspirou. Então reparou numa coisa: o banco ainda tinha um bocadinho de sol, quentinho, no lugar onde a Nina estivera deitada.
Ele sentou-se ao lado do sol, sem ocupar o lugar dela. E disse, em voz alta, para o limoeiro ouvir:
— Desculpa, Nina. Gritei contigo e não devia. Tu só querias dormir. O teu lugar está aqui à tua espera.
Fez-se silêncio. Depois, as folhas mexeram-se. A Nina saiu, esticou as patas e subiu para o banco. Deu três voltinhas, como fazem as gatas, e deitou-se mesmo ao lado dele.
Prrrr, fez ela.
Gonçalo pôs a pena torta entre os dois. A pena brilhava, o banco estava quente, e o ronronar da Nina tremia-lhe na mão, devagarinho, como uma chávena de leite.