Amizade e gentilezaPortuguês
Neblina da Manhã
Miguel achou um sapato dentro da neblina. Era um sapato vermelho, pequeno, com uma fivela brilhante, e estava parado no meio do quintal, sozinho.
Naquele lugar, a neblina guardava tudo o que ficava nela até de manhã. Ninguém achava estranho. Era assim, e pronto.
Miguel sabia de quem era o sapato. Era da Valentina, a vizinha. Ontem os dois brincaram de pular corda no palheiro, e Miguel queria muito ser o primeiro a balançar. Ele puxou a corda com força. A Valentina caiu na palha e perdeu o sapato. Ela ficou olhando, com os olhos bem cheios de água.
Miguel não disse nada. Foi embora correndo.
Agora ele queria só uma coisa: brincar de novo com a Valentina. Mas primeiro precisava dizer que sentia muito.
Pegou o sapato e bateu na porta dela. Abriu a boca. Saiu só um barulhinho.
— Hmm.
Valentina fechou a porta devagar.
Miguel pensou. Voltou ao quintal e achou uma folha grande. Escreveu com um graveto: DESCULPA. Mas a neblina molhou a folha, e as letras viraram uma mancha.
— Ai, ai, ai — disse Miguel.
Então ele viu uma coisa na neblina. Era a voz dele de ontem, presa ali, bem baixinho: "Eu primeiro! Eu primeiro!" Miguel ouviu e sentiu o rosto esquentar. Soou bem feio.
Ele respirou fundo. Voltou à porta e bateu de novo.
Valentina abriu só uma frestinha.
— Valentina, eu puxei a corda com força. Você caiu por minha causa. Desculpa. — A voz tremeu, mas saiu inteira. — Trouxe seu sapato.
Valentina olhou o sapato. Depois olhou para ele.
— Você pode balançar primeiro hoje — disse Miguel.
— Não — disse ela. — Vamos juntos.
Ela calçou o sapato. Fez creque, a fivela fechou. E os dois foram pelo quintal, de mãos dadas, com a neblina se abrindo na frente deles.