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Fabulada

Coragem e medosPortuguês (Portugal)

Um Sussurro no Armário

A Rita estava de joelhos, a puxar a porta do armário, quando ouviu a coisa outra vez.

Psssiu. Psssiu.

Era um sussurro baixinho, vindo lá de dentro, entre os casacos.

– Quem está aí? – perguntou a Rita.

Psssiu, respondeu o armário.

A Rita queria muito saber o que era. Mas a porta não abria. Puxou com as duas mãos. Puxou com o pé encostado à parede. A porta ficou quieta, como uma boca fechada.

– Está bem – disse a Rita. – Se não abres, eu falo contigo.

Encostou a boca à fresta e sussurrou:

– Quem és tu?

Psssiu, respondeu o armário.

A Rita pensou. Tinha puxado, tinha empurrado, e nada. Então reparou numa coisa: o sussurro vinha sempre que a janela estava aberta. Foi lá e fechou-a. A casa ficou muito calada.

Voltou ao armário e encostou o ouvido.

Nada.

Abriu a janela outra vez.

Psssiu. Psssiu.

– Ah! – disse a Rita. – É o vento!

Olhou para a porta e viu que, no fundo, havia um buraquinho redondo. O vento entrava por ali e soprava lá dentro, entre os casacos.

A Rita foi buscar o seu apito de brincar e pôs-se a soprar junto ao buraco. Fiu! Fiu! Do outro lado, um casaco mexeu-se. Depois outro. A porta, que estava presa, deu um estalinho e abriu-se sozinha, só um bocadinho.

Dentro do armário estava o gato da avó, enrolado numa manga de lã. Tinha vindo à procura de um sítio quente para dormir. Abriu um olho e bocejou.

– Então eras tu a fazer psssiu? – perguntou a Rita.

O gato não respondeu. Fechou o olho e começou a ronronar.

A Rita sentou-se no chão, ao lado da porta aberta. Lá fora, o vento soprava baixinho. Cá dentro, o gato ronronava. E os dois sons juntaram-se, psssiu, rrrrr, psssiu, rrrrr, até a Rita também fechar os olhos.