Amizade e gentilezaPortuguês (Portugal)
O chapéu de chaleira
A horta ficava ao fundo da casa nova, atrás de uma cerca baixa. No meio da horta havia um espantalho com uma chaleira na cabeça.
Inês acabou de mudar de casa. Ainda não conhece nenhuma criança, e o que ela mais quer é um amigo para brincar.
Na primeira manhã, acena para o rapaz da casa do lado. Ele está longe e não vê. Na segunda manhã, grita "Olá!" por cima da cerca. Só uma galinha levanta a cabeça.
— Não faz mal — diz Inês ao espantalho. — Vou plantar um feijão.
Põe a semente num vaso, ao pé dos pés dele. Todos os dias espreita a terra, e todos os dias a terra está quieta.
Ao fim da tarde, chega o nevoeiro. Naquela terra, o nevoeiro guarda tudo o que alguém deixa nele, até de manhã. Toda a gente sabe isso, e ninguém acha estranho.
Inês pensa um bocadinho. Depois encosta as mãos à boca e diz para o branco:
— Olá! Queres brincar comigo?
O nevoeiro engole as palavras. Inês vai para a cama.
De manhã, volta à horta. O nevoeiro ainda está ali, a esfiapar-se. E de dentro dele sai uma voz pequenina:
— Olá! Queres brincar comigo?
Era a voz dela. Mas logo a seguir saiu outra, mais grossa:
— Olá! Eu também quero!
Inês fica de boca aberta. Alguém tinha deixado ali um olá, na noite anterior, do outro lado da cerca.
— Quem está aí? — pergunta.
— Sou o Pedro! — responde a cerca. — Estou a procurar a Gema!
A galinha vem a correr por entre as couves, cacarejando. Salta para o ombro do espantalho e bate com o bico na chaleira.
Plim!
Inês ri-se tanto que cai sentada na terra. Pedro passa por cima da cerca e senta-se ao lado dela.
— Olha — diz ele, a apontar para o vaso.
Dentro da terra, uma pontinha verde levanta a cabeça, a espreitar. A Gema bate outra vez na chaleira. Plim! E o nevoeiro, a desfazer-se, repete: plim.