Imaginação e fantasiaPortuguês (Brasil)
A Estrela na Horta
O quintal era pequeno, com uma goiabeira e uma horta no fundo. No quintal havia também um espantalho, que sempre virava a cara para o lado onde os passarinhos se juntavam. Ninguém achava isso estranho.
Uma noite, Davi ouviu um tum lá fora. Ele espiou pela janela. No fundo da horta, entre as alfaces, algo brilhava, pequeno como um limão.
Era uma estrela. Piscava bem fraquinho.
— Ai, que frio — disse a estrela, com voz de sininho.
— Fica aí que eu levo você de volta para o céu — disse Davi. — Antes de amanhecer!
Ele calçou os chinelos e correu até o fim do caminho. Mas ali tinha a vala da chuva, cheia de água e lama. Era larga demais.
Um passo só não dá, pensou Davi.
Ele pulou mesmo assim. Plof! Um chinelo ficou preso na lama.
Então Davi pegou uma tábua que estava jogada no canto. Era curta demais. Ela caiu dentro da água, e a lama espirrou.
Um passo só não dá, ele pensou de novo.
Um sapo estava sentado na beira da horta, bem quietinho. Os vaga-lumes tinham vindo ver a estrela, e ele estava ali para jantar.
— Não me atrapalha, tá? — disse o sapo. — Estou ocupado.
Davi suspirou e olhou em volta. O espantalho tinha virado a cara para a horta, rangendo. E bem no meio da vala, Davi viu um balde virado, que ficou lá desde a última chuva. A boca dele aparecia, redonda, fora da água.
— Um passo só não dá — disse Davi baixinho. — Mas dois passos dá!
Ele puxou a tábua para fora da água e apoiou a ponta no balde. Pisou na tábua e depois no balde, e então chegou do outro lado. Ele pegou a estrela com as duas mãos. Ela era morninha, como um pão saído do forno.
Davi levantou os braços o mais alto que pôde. A estrela subiu devagar, como uma bolha de sabão, cada vez mais alta, até se perder entre as outras.
Tlim, fez lá em cima.
Davi ficou parado no escuro, com as mãos ainda quentes. O sapo soltou um coaxo satisfeito, e o espantalho girou, rangendo, para olhar o céu.