Primeiras vezesPortuguês
O Dente do Moinho
O moinho da vila girava ao contrário sempre que ninguém olhava. Todo mundo sabia disso, e ninguém achava estranho.
Pedro tinha um dente mole. Era o da frente, e balançava para lá e para cá, como uma porta com a dobradiça frouxa.
— Hoje ele sai — dizia Pedro. — Hoje eu guardo ele na caixinha.
A caixinha era azul e ficava debaixo do travesseiro. A vovó dizia que dente na caixinha virava moeda de manhã.
Pedro subiu a colina com o dente balançando. Lá em cima, o vento soprava forte.
Primeiro ele tentou com o dedo. Puxou, puxou, e nada.
Depois mordeu uma maçã. Crec! A maçã ficou com a marca, mas o dente continuou ali.
— Ai, dente teimoso — disse Pedro.
Então ele olhou para o moinho. As pás rodavam para trás, devagarinho. Mas, quando Pedro olhou direto para elas, pararam. Ficaram quietas, como quem não fez nada.
Pedro riu. E, ao rir, sentiu o dente bem solto.
— Ah! Se eu rir bastante...
Ele fez uma careta de macaco. Fez uma voz de sapo. Riu tanto que a barriga doeu.
Plop! O dente pulou da boca e voou com o vento.
— Meu dente! — gritou Pedro.
Ele correu atrás. O dente quicou na grama, rolou pela pedra e sumiu embaixo da porta do moinho.
Pedro se abaixou e espiou pela fresta. Lá dentro, uma coruja piscava, sentada num saco de farinha. Ela só queria dormir em paz. Perto dos pés dela, o dentinho brilhava.
— Com licença — sussurrou Pedro. — Esse dente é meu.
A coruja olhou, olhou e empurrou o dente com a asa, bem de leve. Ele rolou até a mão de Pedro.
— Obrigado! — disse Pedro, baixinho.
— Huuu — fez a coruja, e fechou os olhos.
Pedro desceu a colina com o dente fechado na mão. Atrás dele, as pás do moinho voltaram a girar para trás, devagarinho, e o vento assobiava nelas.