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Fabulada

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O Portão que Cantava

A Julia tinha um portão que cantava. Quando ele abria, não fazia "nhéc". Fazia "lá-ré-mi". Na rua dela, ninguém achava estranho.

Naquele dia, o mais longo do verão, Julia queria uma coisa só: encher o cesto de pêssegos antes da chuva. O pomar do vovô estava pesado de frutas. Os galhos baixos quase tocavam sua cabeça.

Mas o sol não ia embora. Ficava lá no alto, parado, como uma bola de manteiga.

— Esse dia não acaba nunca — disse Julia.

Ela colheu um pêssego, dois, três. O cesto era fundo. Cada pêssego fazia "plof" lá embaixo e parecia sumir.

Ao longe, uma nuvem cinza apareceu.

— Vem, nuvem, mais devagar — pediu Julia.

A nuvem não ouviu. Vinha vindo.

Julia tentou subir na escada. Os pêssegos de cima estavam mais bonitos. Mas a escada balançou, e ela desceu depressa.

Então tentou sacudir um galho. Caíram só folhas, e uma abelha zangada que passou zumbindo, com pressa de voltar para casa.

— Calma, abelha. Eu também estou com pressa — disse Julia.

Ela parou e olhou em volta. Os pêssegos baixos já tinham ido. Mas embaixo da árvore, na grama, havia muitos, macios, caídos de maduros.

— Ora! — disse Julia. — Eles já vieram até mim.

Ela se abaixou e foi pegando, pegando, pegando. Plof, plof, plof. O cesto ficou cheio até a borda.

Quando a primeira gota caiu, Julia já corria. Empurrou o portão com o cotovelo.

Lá-ré-mi, cantou o portão.

A chuva respondeu no telhado, tamborilando. Julia sentou na varanda, com o cesto no colo. O cheiro de pêssego era doce e o dia, por fim, ficava fresquinho.

Ela deu uma mordida. O suco escorreu pelo queixo, e lá fora o portão ainda cantava baixinho, balançando ao vento.