Estações e climaPortuguês (Portugal)
O Sino da Estufa
— Ouve, Inês! — disse o avô, lá de dentro. — Ouvi uma coisa a chiar!
Inês pousou o regador e correu para a estufa. Era o dia mais longo do verão, e ela queria uma coisa só: ficar acordada até o sol se deitar, para dar boa-noite ao tomateiro grande.
Lá dentro, o ar estava quente e húmido, como a casa de banho depois de um banho. Havia tomates vermelhos em todas as filas.
Tic, tic, tic. Alguma coisa mexia entre as folhas.
— Quem está aí? — perguntou Inês.
Ninguém respondeu. Ela espreitou debaixo da prateleira. Nada. Espreitou atrás do vaso. Também nada.
— Isto é um mistério — disse, baixinho.
Tic, tic, tic.
Inês pensou. Se olhasse não encontrava. Então ficou quieta, quietinha, e só ouviu.
O barulho vinha de cima. Inês levantou os olhos. No ramo mais alto estava uma rolinha, sentada num ninho pequeno, com as penas todas arrepiadas.
— Ah! — disse Inês. — Tu já estavas aqui.
A rolinha olhou para ela e bateu o bico na tábua: tic, tic, tic. Estava a chamar os dois ovos, que ainda não tinham saído.
— Este é o sítio onde eu vou dar boa-noite ao tomateiro — disse Inês. — Mas tu chegaste primeiro.
A rolinha não saiu do lugar. Tinha os seus ovos para aquecer.
Inês tentou ficar à porta, mas não via o tomateiro. Tentou ficar à janela, mas via só uma folha. Então teve uma ideia. Trouxe o banquinho e sentou-se muito longe, no fundo da fila, onde o sol da tarde passava pelo vidro.
Dali, via a rolinha, o ninho e o tomateiro, tudo juntos.
— Boa-noite, tomateiro — sussurrou. — Boa-noite, rolinha.
O sol ficou cor de laranja. Lá fora, os grilos começaram a cantar. E no ramo alto, a rolinha fez um som baixinho, quase um ronrom, enquanto a luz ia ficando cada vez mais mansa.