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Heitor e o sol que não ia embora
Heitor achou uma sombra no chão do quintal, e a sombra estava dormindo.
Era a sombra dele mesmo. Estava comprida, preguiçosa, deitada na grama. Mas o sol ainda estava bem alto no céu.
– Estranho – disse Heitor. – Já é hora de dormir, e o sol nem foi embora.
Era o dia mais longo do verão. O sol demorava a descer, e Heitor queria ver o sol se deitar. Só que a mãe tinha dito: "Se você ficar acordado, vai ver. Se pegar no sono, perde."
Heitor sentou no degrau e esperou. O sol não se mexeu.
Ele contou até vinte. O sol não se mexeu.
– Vem, sol – disse ele. – Vem, vem, vem.
Nada. Um passarinho pulou na cerca, bicou uma migalha e foi para o ninho. Ele tinha a sua própria pressa: a noite ia chegar, e filhote não dorme sozinho.
Heitor bocejou. Os olhos ficaram pesados, pesados como duas pedras.
– Não – disse ele, e deu um tapinha na bochecha. Plof!
Então teve uma ideia. Ele pegou um lençol velho do varal e prendeu na cerca com dois prendedores. Fez uma tenda. Dentro dela, ficou fresquinho e um pouco escuro.
– Se o sol não vem até mim – disse Heitor –, eu vou até a noite.
Ele se deitou na tenda e espiou por um buraquinho do lençol. Lá fora, o céu começou a ficar cor de pêssego. Depois cor de laranja. O sol foi descendo, devagar, devagar, como uma bola que rola num tapete macio.
– Olha – sussurrou Heitor. – Vem, sol. Vem, vem, vem.
O sol tocou o telhado da casa vizinha. Fez um brilho no buraquinho. Depois sumiu, e o céu ficou azul-escuro.
Um grilo começou a cantar. Heitor sorriu, com a bochecha no travesseiro de grama, e o lençol balançou de leve com o vento fresquinho da noite.