Coragem e medosPortuguês
O Sussurro da Meia Listrada
A Julia tinha uma meia listrada só de um pé. A outra tinha sumido, e ela dormia assim mesmo, com um pé listrado e o outro pelado.
Naquela noite, a Julia estava quase dormindo quando ouviu um barulhinho.
— Psss… psss…
Vinha do guarda-roupa.
A Julia sentou na cama. Ela queria muito dormir, mas não conseguia com aquele sussurro.
— Quem está aí? — ela perguntou.
— Psss… psss…
Ela abriu a porta um pouquinho. Nada. Só casacos pendurados, quietos como bichos de sono. Fechou a porta. E o sussurro voltou.
— Psss… psss…
A Julia pensou. Bateu na porta de leve, toc, toc. O sussurro parou. Esperou um pouco. Ele voltou.
Então ela fez diferente. Em vez de olhar, ficou bem quieta e escutou. O som não vinha de cima, nem do meio. Vinha lá de baixo, do chão.
Ela se abaixou, empurrou os sapatos para o lado e achou uma caixinha de botões. A caixinha chacoalhou sozinha.
— Psss… psss…
Dentro da caixa, tinha um grilinho. Ele estava puxando um fio de lã com as patinhas, e o fio roçava na madeira. Pssss. O fio era listrado.
— Ei! — disse a Julia. — Esse fio é da minha meia!
— Eu sei — disse o grilo, um pouco sem jeito. — Era macio. Eu precisava de uma cama.
A Julia olhou a meia desfiada. Depois olhou o grilinho, pequeno demais para um cobertor de verdade.
— Pode ficar com um pedacinho — ela disse. — Mas faz isso baixinho.
O grilo ajeitou o fio, deu três voltas e se enrolou todo.
A Julia voltou para a cama, com um pé listrado e o outro pelado. No guarda-roupa, o sussurro foi ficando mais fraco… psss… psss… até virar só respiração.