Profissões da comunidadePortuguês (Portugal)
Três Portas e Uma Mangueira
Quando o Rodrigo abriu o armário do quartel, encontrou um chapéu de bombeiro a assobiar sozinho. Ninguém achou estranho. Naquele quartel, os chapéus assobiavam sempre uma cantiga diferente para cada pessoa.
– Bom dia, Rodrigo! – disse o chapéu, em tom de música.
Rodrigo era o bombeiro mais pequenino do quartel, e naquele dia queria muito uma coisa: regar a horta da dona Amélia antes do pôr do sol. A terra estava seca, e as couves tinham as folhas caídas. Mas a mangueira grande tinha desaparecido.
– Vou encontrá-la – disse ele. – Vou, vou, vou.
Abriu a primeira porta, a da garagem. Só havia o camião vermelho e um balde furado. Pim-pim-pim, fazia a água a pingar.
Rodrigo pensou e abriu a segunda porta, a da cozinha. Só encontrou panelas e um gato a dormir em cima do frigorífico. O gato abriu um olho e voltou a fechá-lo. Ele tinha ali o seu sossego e não ia ajudar ninguém.
O sol já estava baixinho, cor de laranja.
– Vou, vou, vou – disse Rodrigo, mais devagar.
Sentou-se no chão a pensar. Então reparou numa coisa: o balde furado pingava, e o pinga-pinga formava um riscozinho molhado no chão. O riscozinho seguia até à terceira porta, a do telhado.
Rodrigo seguiu o risco, degrau a degrau. Lá em cima, a mangueira estava enrolada como uma cobra grande e preguiçosa, a secar ao sol.
– Era aí que estavas! – riu-se ele.
Puxou-a, puxou-a, e a mangueira desenrolou-se toda de uma vez. Pof! Rodrigo sentou-se de repente, e o chapéu assobiou uma cantiga de gargalhada.
Ainda a tempo, antes de o sol se esconder, correram à horta. A água saiu a brilhar e caiu sobre as couves. Uma folha levantou-se. Depois outra.
Rodrigo ficou a ouvir o chuááá da água na terra, e o chapéu assobiou baixinho, até a noite chegar.