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Fabulada

Coragem e medosPortuguês (Portugal)

A Lanterna do Gonçalo

— Não quero ir por ali — disse o Gonçalo, e agarrou a lanterna com as duas mãos.

Era noite, e a avó tinha-lhe pedido que fosse buscar a rega à estufa. Lá dentro estavam as plantinhas novas, tão pequeninas que mal se viam. O Gonçalo queria muito regá-las, porque a avó dizia que de noite elas bebiam melhor. Mas a estufa estava escura, e o caminho de tábuas tinha duas curvas. Ele já não sabia qual era a boa.

Experimentou a primeira. Deu três passos e encontrou um saco de terra. Voltou atrás.

Experimentou a segunda. Deu quatro passos e bateu num vaso. Tóim! O vaso rodou, e o Gonçalo ficou muito quieto.

— Isto está tudo escuro — sussurrou.

Do lado de fora, a colina começou a cantarolar. Fazia isso sempre que chovia. Hmmmm, hmmmm. Ninguém na quinta achava estranho. A chuva tamborilava no telhado de vidro, e a colina respondia baixinho.

O Gonçalo ouviu. O som vinha de trás dele, da porta. E percebeu uma coisa: quando andava, a colina cantava sempre do mesmo lado.

— Então eu sei onde fica a porta — disse ele. — Se voltar ao início, posso fazer tudo outra vez.

Foi para trás, passo a passo, até sentir a porta nas costas. Hmmmm, cantou a colina.

Depois acendeu a lanterna e andou devagar, contando.

— Um passo, dois passos, três passos.

Parou na primeira curva e apontou a luz para o chão. As tábuas estavam molhadas e brilhavam como peixinhos. Só uma delas tinha um risco comprido.

— Esta é a do meio — disse ele.

Seguiu o risco. Passou o saco de terra, contornou o vaso e chegou ao fundo, onde estava a rega, ao pé dos rebentos.

A luz da lanterna tremia sobre as folhinhas verdes. O Gonçalo inclinou a rega, e a água caiu em fios muito finos. Plic, plic, plic.

Lá fora, a colina cantava. Cá dentro, as plantinhas bebiam, e a lanterna ficou quietinha na mão dele.