Família e larPortuguês (Portugal)
O Avô e o Chapéu Verde
A casa da Marta ficava no cimo de uma rua cheia de pedras, e na janela da cozinha havia sempre um vaso de salsa.
Naquela manhã, a Marta estava sentada nos degraus da porta, à espera. Hoje vinha o avô Zé. Ele trazia sempre o chapéu verde, e a Marta queria ser a primeira a vê-lo.
— Quando é que ele chega? — perguntou ao gato.
O gato bocejou e foi dormir ao sol. Tinha a sua vida.
De repente, a Marta viu um chapéu verde a subir a rua. Saltou e correu.
— Avô! Avô!
Mas debaixo do chapéu estava a vizinha, a dona Rita, com um saco de laranjas.
— Ainda não é o teu avô, querida — disse ela, a rir.
A Marta voltou aos degraus. Esperou mais um bocadinho. Outro chapéu verde! Correu outra vez. Era só um balde virado ao contrário, em cima do muro.
— Pois — suspirou a Marta. — Hoje está tudo verde.
Então teve uma ideia. O avô não se via bem, mas ouvia-se. Ele vinha sempre a assobiar.
A Marta fechou os olhos e ficou muito quieta. Ouviu o vento. Ouviu as galinhas da dona Rita. Ouviu o gato a ressonar.
E depois ouviu, lá ao fundo, devagarinho:
Fiu, fiu, fiuuu.
— É ele! — sussurrou.
Desta vez não correu logo. Abriu os olhos e espreitou. Lá em baixo, um chapéu verde subia a rua, e debaixo dele havia um bigode branco e um saco às riscas.
— Avô! — gritou a Marta, e agora sim, correu.
O avô largou o saco e abriu os braços. O chapéu caiu para o chão. A Marta riu-se, porque o avô tinha uma careca tão brilhante como uma colher.
— Trouxe-te uma coisa — disse ele.
Tirou do saco um assobio de madeira. A Marta soprou, e o gato levantou as orelhas.
Fiu, fiu, fiuuu.
Os dois assobiaram juntos, subindo a rua, até chegarem à porta.