Família e larPortuguês (Brasil)
Vovô e o Jardim das Horas
Laura tinha um jardim onde cada flor abria na sua hora. A margarida abria às oito. A flor-azul abria ao meio-dia. E a branquinha só abria quando o sol ia embora, bem na hora do jantar.
Ninguém achava isso estranho. Era só o jardim da Laura.
Hoje o vovô vinha visitar. Laura queria mostrar a ele a flor branquinha, a sua favorita. Mas o vovô chegava de ônibus antes do almoço e ia embora cedo, antes do escuro.
— Vovô vai perder a flor — disse Laura, e cruzou os braços.
Ela tentou primeiro soprar o botão. Fuuu. Nada. Tentou fazer cócegas nas pétalas com uma pena. O botão ficou fechadinho, como um punho.
Então o vovô chegou, com o chapéu torto e uma sacola de pão.
— Que jardim bonito! — disse ele. — Me mostra tudo, Laura?
Laura mostrou. A margarida já estava aberta. A flor-azul abriu bem na hora em que eles passaram, e o vovô bateu palmas.
— Falta uma — disse Laura baixinho. — Ela só abre quando escurece.
— Então a gente espera — disse o vovô.
— Esperar é chato.
— Esperar é difícil — disse o vovô. — Vem, vamos brincar de esconde-esconde. Assim o tempo passa.
Laura contou até dez. Achou o vovô atrás da árvore. Achou o chapéu dele na cerca. Depois o vovô se escondeu de novo, e de novo, e Laura achou o vovô cada vez mais devagar, porque o sol estava ficando cor de laranja.
Na última vez, ela não achou o vovô em lugar nenhum.
— Vovô? Vovô?
Laura andou pelo jardim todo. Parou perto do canteiro e ficou quietinha. Ali, no meio do silêncio, algo fez plim, bem baixinho.
Era a flor branquinha, abrindo.
E, ao lado dela, de cócoras, com o dedo na boca, estava o vovô.
— Shhh — sussurrou ele. — Achei ela primeiro.
Laura riu e sentou do lado dele. O ônibus ainda não tinha chegado, e a flor branquinha brilhava na penumbra como uma lua pequena.