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Fabulada
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Uma família de lontrasPT

A Pedra Que Sempre Cabe

O rio corria manso entre as pedras lisas, fazendo aquele som de conversa baixinha que nunca parava, nem de noite. Do barranco de barro escorregadio saíam bolhas quando alguma lontra nadava por baixo, e o cheiro era sempre de água fria e folhas molhadas. A coisa estranha, ali, era a pedra grande e chata perto da margem: por mais lontras que se sentassem para comer ao entardecer, sempre havia espaço para mais uma. Lara era a mais nova da família, com um bigode que se enrolava na ponta como uma vírgula, e adorava ser a primeira a descer pelo escorregador de barro até a água.

Naquela tarde o vento ficou forte de repente, e o rio, que antes era manso, virou uma correnteza puxando forte perto da pedra. O irmão mais velho de Lara disse que precisavam esperar a água se acalmar antes de escorregar. Lara cruzou as patas e bateu o rabo na lama, impaciente, olhando o rio como se ele fosse se calar só de olhar feio.

A vó Otília, que ficava sempre quieta observando o movimento da água, chegou perto e sentou ao lado dela.

— Você está impaciente, Lara — disse, sem pressa. — Vem, deixa eu te mostrar uma coisa. Põe a pata assim, na beira, e sente quando a água para de empurrar.

Lara pôs a pata pequena na correnteza fria. Sentiu o puxão diminuir, devagar, devagar, até a água ficar mansa outra vez debaixo dos dedos.

— Agora! — gritou, e escorregou rindo pelo barro até o rio.

Quando a luz da tarde ficou dourada e o vento parou, todos se sentaram na pedra grande, apertados, e como sempre havia lugar para mais uma. Lara sentou ao lado da vó Otília, os dois compartilhando o calor um do outro enquanto o rio, agora quieto, seguia conversando baixinho como sempre conversara. E desde aquele dia, sempre que o vento soprava forte, era Lara quem colocava a pata na água primeiro, para sentir quando era hora.