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O Pequeno Oh Corazón

No topo da Colina dos Ventos, onde o ar trazia sempre um gosto suave de baunilha e o chão de grama macia brilhava como se estivesse salpicado de purpurina, a única coisa estranha era que as pedras redondas do caminho mudavam de cor quando a noite se aproximava. Lá vivia João, um menino que tinha as orelhas ligeiramente pontudas e usava um cachecol verde tão comprido que precisava dar três voltas no pescoço para não tropeçar nele.

Certa tarde, João decidiu que era o momento de aprender a canção mais antiga da colina, chamada pelos antigos de Oh Corazón, um assobio baixinho que as pessoas usavam para se despedir do sol. Ele subiu na pedra mais alta, encheu o peito de ar e soprou, mas o som saiu esganiçado, como o guincho de um filhote de passarinho assustado. A impaciência tomou conta das suas pernas, fazendo-o chutar o chão com força enquanto seus lábios teimavam em não fazer o formato certo para o sopro.

A senhora Clara, uma vizinha de olhos muito atentos que passava carregando um balde de metal vazio, parou e observou o esforço do menino.

— Você está chateado porque a sua voz ainda não consegue desenhar a música que está na sua cabeça, não é? — disse ela, pousando o balde pesado na grama. — Eu não posso assobiar por você, mas posso lhe dar esta semente de romã bem vermelha para você segurar debaixo da língua até o gosto sumir.

João colocou a semente na boca e sentiu o azedinho refrescante acalmar o aperto na sua garganta. Ele não tentou mais alcançar a nota mais alta; em vez disso, deixou o ar sair devagar, misturado com o sabor da fruta, num sopro suave que finalmente imitou o som do vento.

A luz do entardecer agora pintava as pedras do caminho com um tom de violeta morno e acolhedor. Daquele dia em diante, o assobio do Oh Corazón passou a fazer parte de todas as tardes de João, que sempre encontrava a nota certa assim que o sol começava a descer.